A identidade cultural na pós-modernidade – Stuart Hall

Stuart Hall, sociólogo jamaicano e importante teórico cultural, publicou, em 1992, “The question of cultural identity” (A identidade cultural na pós-modernidade1) que analisava, como questão central, a identidade cultural na era da globalização.

Stuart Hall. / Foto de Eamonn Mccabe
Stuart Hall. / Foto de Eamonn Mccabe.

No primeiro capítulo do livro, “A identidade em questão”, o autor define três concepções distintas de identidade cultural do sujeito, são elas:

– Sujeito do iluminismo: indivíduo unificado e racional, centrado em seu núcleo interior, ou seja, em sua identidade que permanece inalterada.

– Sujeito sociológico: a identidade é formada a partir da interação entre o indivíduo e a sociedade. Esse indivíduo possui seu núcleo interior, mas agora ele passa a ser alterado por conta do diálogo com outras identidades que o mundo cultural oferece.

– Sujeito pós-moderno: a identidade do sujeito é composta por várias identidades que, em alguns casos, podem ser até contraditórias. Esse processo de fragmentação produz o sujeito pós-moderno, que não possui uma identidade fixa.

No primeiro item do capítulo, “O caráter da mudança na modernidade tardia”, são abordados os constantes processos de mudanças nas sociedades modernas. Para Stuart Hall, esses processos formam o sujeito pós-moderno, que está dentro de uma estrutura deslocada (conceito de Ernesto Laclau2), ou seja, o sujeito desarticula suas identidades estáveis do passado e abre o espaço para a criação de novas identidades culturais.

No próximo item, “O que está em jogo na questão das identidades?”, o caso do juiz Clarence Thomas é utilizado como exemplo da fragmentação do sujeito pós-moderno. O juiz conservador foi o segundo negro a integrar a Suprema Corte dos Estados Unidos e foi indicado, em 1991, pelo ex-presidente Bush para conseguir restaurar uma maioria conservadora na referida Corte.

Durante as audiências em torno da nomeação, o juiz foi acusado de assédio sexual a uma funcionária subalterna, Anita Hill, que também era negra. Esse acontecimento causou um alvoroço na sociedade americana e fez com que as opiniões se polarizassem. A tabela abaixo exemplifica as diversas contradições em que os indivíduos se depararam ao julgar o caso:

Tabela
Tabela 1 – O jogo de identidades em relação ao caso do juiz Clarence Thomas. (Fonte: Tabela elaborada pela autora).
A questão da culpa ou da inocência do juiz Thomas não está em discussão aqui; o que está em discussão é o “jogo de identidades” e suas consequências políticas. Consideremos os seguintes elementos: * As identidades eram contraditórias. Elas se cruzavam ou se “deslocavam” mutuamente. * As contradições atuavam tanto fora, na sociedade, atravessando grupos políticos estabelecidos, quanto “dentro” da cabeça de cada indivíduo. (HALL, 2014, p. 15).

Stuart Hall conclui que “as paisagens políticas do mundo moderno são fraturadas dessa forma por identificações rivais e deslocantes – advindas, especialmente, da erosão da “identidade mestra”” (2014, p. 15), que seria aquela do sujeito iluminista, centrado em seu “eu” estável e que, na era do sujeito pós-moderno, se torna uma identidade fragmentada por conta do crescimento e a aceitação de novas identidades.

A identidade cultural na pós-modernidade
Capa do livro “A identidade cultural na pós-modernidade”, publicado pela editora Lamparina.

No capítulo, “Nascimento e morte do sujeito moderno”, o autor trata de aprofundar as concepções de sujeito (sujeito do iluminismo; sociológico e pós-moderno) traçando um paralelo com registros da história.

O sujeito iluminista, no século XVIII, se caracterizava pela sua racionalidade, por pensar e agir conscientemente. A frase célebre de René Descartes3 exemplifica esse sujeito: “Penso, logo existo”. Esse sujeito possuía a sua identidade centrada e estável.

Na primeira metade do século XX, à medida que as sociedades modernas se tornavam mais complexas, surge o sujeito sociológico que emerge, principalmente, por dois eventos, sendo um deles a biologia darwiniana, quando o sujeito foi “biologizado” e o surgimento das novas ciências sociais. Esse modelo propôs uma interação entre “interior” (o indivíduo) e “exterior” (a sociedade).

Já na segunda metade do século XX, o autor faz um esboço de cinco grandes avanços na teoria social, que causaram um “descentramento” do sujeito e o nascimento do sujeito pós-moderno, são eles:

  1. Os escritos de Karl Marx4, do século XVIII, que foram interpretados no sentido de que os indivíduos não poderiam ser os autores de suas histórias, pois deveriam seguir os padrões históricos que foram criados por outras pessoas e que após seu nascimento foram lhe passadas essas mesmas regras a serem seguidas.
  2. A descoberta do inconsciente de Sigmund Freud5, de que “nossas identidades, nossa sexualidade e a estrutura de nossos desejos são formadas com base em processos psíquicos e simbólicos do inconsciente” (2014, p. 15).
  3. A língua como sistema social e não individual. Falar uma língua é trazer todos os seus significados linguísticos e culturais.
  4. Michel Foucalt6 discute o poder disciplinar e Stuart Hall chega à conclusão de que quanto mais coletivo e organizado é o poder disciplinar, maior é o isolamento, a vigilância e o individualismo do sujeito na modernidade tardia.
  5. Impacto do feminismo como crítica teórica e movimento social.

Sendo assim, ao mapear o sujeito do iluminismo ao pós-moderno, é possível entender que a identidade não é algo inato ao homem. Ela é formada ao longo do tempo, por processos do inconsciente de cada indivíduo.

Jacques Lacan7 teorizou sobre o chamado “Estádio do Espelho” em que, quando criança, o “eu” é formado simbolicamente pelo olhar do Outro, ou seja, a língua, a cultura e a diferença sexual da criança são formadas por representações do Outro e a partir do espelho o “eu” se concretiza e a criança/indivíduo passa a estar em estado de tensão para que essa imagem não se perca.

Há um momento na vida da criança em que ela inicia um processo de estruturação do eu, que é propiciado pela identificação com a imagem do seu próprio corpo no espelho. A vivência psíquica experimentada pela criança até então era de um corpo despedaçado (corps morcelé). Ela não se tinha em uma unidade corporal, seu corpo era algo disperso, aos pedaços, um caos desconfortável. Em determinado momento a criança pára diante do espelho e expressa uma reação especial, a mímica do aha-erlebnis: surpresa e impacto emocional – reconhece que aquela imagem (inicialmente estranha), lhe diz respeito. Às vezes chega até a se confundir com ela. Expressa surpresa, aha-erlebnis, ao reconhecer ali o reflexo dos objetos da sua realidade, onde se inclui o seu corpo, em um universo virtual, com o qual brinca prazerosamente ao perceber a duplicação dos seus movimentos, e dos objetos à sua volta, na imagem especular. É nesse momento inaugural de impotência motora que o sujeito se deixa capturar pela miragem escópica em uma gestalt onde se configura o seu eu imaginário. (PRADO, 2009, p. 2).

No capítulo, “As culturas nacionais como “comunidades imaginadas””, o autor discute uma das principais fontes culturais do indivíduo no mundo moderno: as culturas nacionais. Essas culturas são representações, não da identidade política, mas dos sentidos que a nação produz sobre os indivíduos. Sendo uma cultura nacional um discurso em que os indivíduos podem se identificar, assim criando uma identidade nacional. Para responder a pergunta “Como é contada a narrativa nacional?”, Stuart Hall seleciona as cinco principais estratégias discursivas para essa questão, são elas:

  1. A narrativa da nação contada pelos diversos veículos de mídia nacional e que fornecerem histórias sobre a cultura da nação propondo uma representação das experiências vivenciadas, criando-se assim uma “comunidade imaginada”.
  2. A narrativa da ênfase na tradição. Esse discurso diz que a identidade nacional está na verdadeira origem das cosias.
  3. A narrativa em que a tradição é inventada quando as histórias parecem ou alegam ser antigas, mas na realidade são de origem recente e em alguns casos inventadas. Essas invenções de práticas culturais buscam disseminar certos valores e normas de comportamento na sociedade.
  4. A narrativa do mito fundacional em que novas nações são fundadas a partir de mitos. Ao se contar uma história para localizar a origem da nação num passado tão distante, ela passa a se perder no tempo e se torna um mito.
  5. A identidade nacional com um discurso de povo “puro”, “original”. Entretanto, raramente é esse povo que consegue ficar no poder.

A “comunidade imaginada” se constitui de três elementos: das memórias do passado; do desejo pela convivência em conjunto e pela perpetuação da herança cultural. Esses elementos buscam unificar todos os indivíduos numa identidade nacional. Assim, todos serão representados – mesmo com suas diferenças de raça, classe ou gênero – como pertencentes da mesma nação.

Stuart Hall
Stuart Hall. / Foto de BFI.

O autor problematiza quando diz que, “em vez de pensar as culturas nacionais como unificadas, deveríamos pensá-las como constituindo um dispositivo discursivo que representa a diferença como unidade ou identidade” (2014, p. 36). Portanto, a cultura nacional possui diferenças internas que são ignoradas ao se unificar a cultura nacional em um discurso para que ocorra o exercício do poder cultural. Sendo assim, não se assume que as nações modernas são híbridas culturalmente.

No capítulo “Globalização” o autor aborda o motivo pelas sociedades modernas terem se “descentrado”. Os processos que atravessam fronteiras integrando e conectando comunidades são chamados de processos globais e com isso as identidades nacionais se desintegram e dão lugar as novas identidades, que são híbridas.

A relação do espaço-tempo com a identidade passa a ter outro significado na era da globalização. Os lugares de nossas raízes permanecem fixos, mas o espaço pode ser “cruzado” por diversos meios de transporte ou comunicação e isso é chamado, por David Harvey8, de “destruição do espaço através do tempo” (HALL, 2014, apud HARVEY, 1989, p. 205).

A globalização tem causado uma tendência ao colapso de todas essas identidades culturais fortes, tornando as identidades fragmentadas e efêmeras pela multiplicidade de culturas híbridas que transformam o antigo sujeito sociológico em sujeito pós-moderno global.

Quanto mais a vida social se torna mediada pelo mercado global de estilos, lugares e imagens, pelas viagens internacionais, pelas imagens da mídia e pelos sistemas de comunicação globalmente interligados, mais as identidades se tornam desvinculadas – desalojadas – de tempos, lugares, histórias e tradições específicos e parecem “flutuar livremente”. (HALL, 2014, p. 43).

A mídia, com seu papel fundamental na veiculação de notícias, canoniza certos locais turísticos como os locais em que a verdadeira cultura se encontra. Um exemplo citado pelo autor é de que “se quisermos provar as cozinhas exóticas de outras culturas em um único lugar, devemos ir comer em Manhattan, Paris ou Londres e não em Calcutá ou em Nova Deli” (2014, p. 47).

No último capítulo, “Fundamentalismo, diáspora e hibridismo”, o autor descreve a oscilação que existe entre tradução e tradição. O conceito de tradução diz respeito àquelas formações de identidade que atravessam as fronteiras da nação e são compostas por pessoas que saíram de sua terra natal. Portanto, elas são obrigadas a negociar e respeitar os hábitos e costumes da nova cultura do lugar em que habitam, mas sem se desligarem de suas histórias, tradições, línguas particulares em que foram marcadas. Essas pessoas não serão assimiladas pela nova cultura, por isso não serão unificadas, pois elas pertencem a uma cultura híbrida. Em contraponto, existem fortes tentativas para se reconstruir identidades puras e restaurar o fechamento frente ao hibridismo e à diversidade cultural.

Notas

1 Publicado, em 2014, pela editora Lamparina com tradução de Tomaz Tadeu da Silva e Guacira Lopes Louro.

2 “Ernesto Laclau (1990) usa o conceito de “deslocamento”. Uma estrutura deslocada é aquela cujo centro é deslocado, não sendo substituído por outro, mas por “uma pluralidade de centros de poder”.”.

3 Filósofo, físico e matemático francês. Considerado fundador da filosofia moderna.

4 Foi considerado o fundador da doutrina comunista moderna, que atuou como economista, filósofo, historiador, teórico político e jornalista.

5 Foi um médico neurologista e criador da Psicanálise.

6 Foi um filósofo, historiador, teórico social, filólogo e crítico literário francês.

7 Foi um psicanalista francês. Formado em Medicina, passou da neurologia à psiquiatria.

8 David Harvey é um dos marxistas mais influentes da atualidade, reconhecido internacionalmente por seu trabalho de vanguarda na análise geográfica das dinâmicas do capital. É professor da City University of New York e trabalha com diversas questões ligadas à geografia urbana.

Bibliografia

HAll, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Editora Lamparina, 2014.

HARVEY, DAVID. The condition of post-modernity. Oxford: Oxford University Press, 1989.

PRADO, Antonia Claudete Amaral Livramento Prado. O estádio do espelho, o narcisismo e o Outro. Centro Lacaniano de Pesquisa em Psicanálise: Instituto Trianon de Psicologia, 2009.

Banco de Dados Folha de São Paulo. Juiz é aceito na suprema corte depois de polêmica. Disponível em: <http://almanaque.folha.uol.com.br/mundo_16out1991.htm>. Acesso em: 7 mar. 2015.

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