Antoine Doinel – Percorrendo a vida de um personagem

Os incompreendidos

François Truffaut, em seu longa de estreia, nos apresenta um personagem que marca a história do cinema francês. O nome do menino problemático é Antoine Doinel, interpretado por Jean-Pierre Léaud, que é o protagonista do filme “Os Incompreendidos”, de 1959.

Com o lançamento do filme, Truffaut populariza o movimento da nouvelle vague no mundo. Movimento este, que propunha muita liberdade na realização dos filmes, produção simplificada e cada jovem cineasta procurava exibir uma certa realidade, o seu olhar sobre os pequenos fatos da vida.

Se nossos filmes chocam, não fluem, não procuram oferecer simplesmente um momento agradável, é que tentam ser um conjunto de coisas fortes, importantes, que precisam ser ditas urgentemente. Parece-me que os jovens realizadores estão mais preocupados com o que se passa na tela do que com a técnica. Atribuem uma grande importância aos personagens e assuntos de seus filmes. (TRUFFAUT, 1973)

Cerca de sessenta crianças disputavam o papel de Antoine Doinel e a busca era por uma semelhança mais moral do que física com a criança que um dia Truffaut havia sido. Jean-Pierre Léaud, que até então não era ator, teve sua chance de ser protagonista do filme.

Em sua audição disponível no youtube é possível observarmos como o garoto se porta ao responder as perguntas de Truffaut. “Muitas crianças vieram pela curiosidade ou levadas pelos pais. Jean-Pierre Leáud era diferente, queria o papel com todas as suas forças, esforçava-se para exibir um aspecto relaxado e brincalhão, mas na realidade estava se borrando” (TRUFFAUT, 2005, p. 24).

No filme, o garoto vive com os pais, mas não recebe a atenção devida. É nesse contexto de ausência familiar que sua vida solitária passa a ser diferente da de seus colegas. Nas palavras de Truffaut, o personagem é a síntese de duas pessoas reais: Jean-Pierre Léaud e ele próprio.

Uma das marcas desse período para Truffaut foi ter ido parar, aos quinze anos, no Centro de Menores Delinquentes, em Villejuif, por conta de mau comportamento, que podemos ver retratado no filme de 1959. No entanto, de todos os fatos semelhantes entre o personagem e seu criador, o principal deles é o amor pelo cinema.

É possível entender como foi sofrida a infância do cineasta e constatar, pela sua obra, que o cinema foi crucial para a mudança no rumo de sua vida. Seu vício pela sétima arte foi o que o levou a escrever críticas e ser um dos principais colaboradores da revista Cahiers du Cinéma.

Em 1962, Truffaut nos conta mais um pouco da história de Doinel com “Antoine e Colette”, que integra o longa “O Amor aos Vinte Anos”. O grupo de diretores do filme é composto por Andrzej Wajda (Polônia), Marcel Ophüls (Alemanha), Shintaro Ishihara (Japão) e Renzo Rossellini (Itália).

No média-metragem, após deixar o reformatório, o jovem rapaz se apaixona por uma garota que conhece apenas de vista, durante um concerto. Ele tenta primeiro conquistar seus pais, para depois conhecê-la melhor. O garoto passa a frequentar a casa de Colette (Marie-France Pisier), mas ela não tem intenção de namorar Doinel, que fica sozinho.

Beijos proibidos

O personagem volta para as telas em 1968, no filme “Beijos Proibidos”. Doinel está em busca de um emprego, pois acaba de ser expulso do exército. No meio das diversas dificuldades para encontrar uma oportunidade, o jovem consegue uma vaga numa agência de detetives particular e se apaixona pela mulher de seu cliente, que o contratou para investigá-la.

Christine Darbon, interpretada pela atriz Claude Jade, aparece no filme como uma amiga de Doinel, mas é no longa “Domicílio Conjugal”, lançado em 1970, que vemos os dois personagens como marido e mulher.

Domicílio conjugal

Podemos observar um pouco da vida do casal e acompanhar a gravidez de Christine Darbon, que é professora de violino. Os dois são jovens e estão apaixonados um pelo outro, mas tudo muda após o nascimento do bebê, quando o rapaz conhece uma nova mulher.

Além da atração por uma outra mulher, Doinel passa por problemas nos empregos, pois não consegue se adequar em praticamente nenhum deles. Ele tentou ser detetive, cuidar de uma floricultura e até pilotar barcos em miniatura para uma empresa.

Dividido entre Hiroko – a exótica mulher que conheceu – e Christine, Doinel se mostra, mais uma vez, com problemas de relacionamento e sofre pelas consequências de suas escolhas amorosas. Além do trabalho numa corporação, ele tenta terminar de escrever um romance autobiográfico.

O amor em fuga

O último filme em que podemos acompanhar a história do personagem é “O Amor em Fuga”, de 1979. Doinel já está mais velho, lançou seu livro e está em processo de separação de Christine. Ele tem uma nova namorada, Sabine (Dorothée), mas sempre a desaponta com suas atitudes.

O primeiro amor de Doinel também aparece nesse último filme. Colette se tornou uma advogada e está lendo o livro escrito por ele. Ao longo da leitura, ela vai descobrindo coisas que nem sequer imaginava. Isso faz com que o encontro dos dois seja um choque para ambos.

Após vinte anos da primeira aparição de Doinel nos cinemas, Truffaut nos deixa curiosos depois de “O Amor em Fuga”, pois, infelizmente, Doinel não aparece mais em nenhum outro filme do diretor.

Imagino por quais outros lugares esse personagem passou, se ele escreveu mais um livro, se ele ainda estaria com Sabine, como ficou a relação entre ele e seu filho, entre diversas outras suposições nos hipotéticos novos roteiros.

Esse personagem complexo e único tem uma profundidade que nos envolve e gera identificação logo nas primeiras cenas, pois estamos ao seu lado, acompanhando sua vida e prontos pra emprestar o isqueiro pra ele assim que ele precisar.

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Bibliografia

TRUFFAUT, François. O cinema segundo François Truffaut. Editora Nova Fronteira, 1990.

_______. O prazer dos olhos. Escritos sobre cinema. Editora Zahar, 2005.

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