Teatro: O Teste de Turing

O Centro Cultural São Paulo lançou, em 2015, o edital para a II Mostra de Dramaturgia em Pequenos Formatos Cênicos com o objetivo de promover a montagem de textos inéditos. Um dos três contemplados foi O Teste de Turing de Paulo Santoro, escritor e criador de jogos que fez parte, até 2006, do Círculo de Dramaturgia do Centro de Pesquisa Teatral (CPT), criado por Antunes Filho.

Em 1950, Alan Turing fez um convite para a seguinte reflexão: podem as máquinas pensar? Para conseguir responder a essa questão ele criou um teste que tem o objetivo de saber se é possível uma máquina se passar por um ser humano. No caso de não ser identificada pelos participantes, seria considerada inteligente e, consequentemente, um ser pensante. Esses estudos contribuíram muito para o desenvolvimento da ciência cognitiva.

Podemos conhecer um pouco sobre a história de Alan Turing no filme O Jogo da Imitação, ver o teste em prática no filme Ex-Machina: Instinto Artificial e observar a primeira inteligência artificial perfeita do mundo no filme Uncanny. No teatro, produções de ficção científica são bem raras de serem encontradas na programação cultural. Roberto de Sousa Causo, graduado pela FFLCH/USP, escreveu o artigo Ficção Científica e Teatro: uma curta introdução e constatou que, no Brasil, a escolha desse gênero tem sido amplamente ignorada pelos diretores.

O teste de inteligência é o fio condutor da peça e Santoro consegue abordar um tema complexo de forma clara e precisa, além de instigar o espectador a pensar e questionar o papel da inteligência artificial nos dias de hoje e em suas possibilidades para o futuro. O texto foi escrito em 2004 e, mesmo com a realização da montagem 12 anos depois, continua atual e provocador.

GABRIELA
Quando o pensador Alan Turing propôs seu método, o objetivo era determinar se seria possível fazer um computador pensar, como se tivesse uma mente humana. Para isso teria de verificar a capacidade de comunicação verbal da máquina. Ele não estava preocupado com gestos, com a aparência, com expressões faciais. Apenas com a linguagem. As pessoas que aplicam o teste criado por Turing devem conversar ao mesmo tempo com uma pessoa real e com uma máquina.

No início da peça, momento que cumpre a função de um prólogo, nos ambientamos numa empresa de tecnologia, na qual a assistente do presidente da empresa, Gabriela (Maria Manoella), conversa com uma máquina. Alguns minutos depois, Alexandre (Rodrigo Fregnan) é o primeiro a entrar na sala do teste. Ele tenta um contato com a máquina, mas não obtém sucesso. Logo após, entram outros dois professores convidados, Guilherme (Jorge Emil) e Patrício (Felipe Ramos). Vemos os três apenas por meio de um telão durante a primeira parte do espetáculo.

A afinidade do elenco é um ponto forte da montagem, possibilitando imaginar possíveis gêneses para os personagens, o que torna a fruição mais instigante para o espectador. Felipe Ramos está bem em cena com seu personagem arrogante e impaciente, que é o primeiro a sair de cena. Jorge Emil causa muita empatia com as sutilezas construídas e pela paixão súbita de seu personagem, que o faz ter uma rápida desilusão e abandonar o palco em seguida, decepcionado por ter caído numa armadilha. 

PATRÍCIO
Que uma máquina mimetize o ser humano em muitas coisas, é visível e eu posso compreender. Mas dizer que uma máquina sente alguma coisa não faz nenhum sentido!
GUILHERME
Como você pode saber que ela não sente? Como você pode saber com exatidão até mesmo o que uma outra pessoa sente?

Maria Manoella se destaca ao longo da encenação. Ficamos impressionados com sua técnica, principalmente durante a segunda parte da peça. Rodrigo Fregnan propõe possibilidades singulares com seu personagem ao realizar as objeções ao teste, nos dando outros pontos de vista que mergulham no grande embate entre a máquina e o ser humano. Não saímos da peça como entramos, parece que passamos por um processo de transformação. Em alguns momentos, estamos do lado de Gabriela, em outros, nos identificamos com os questionamentos de Alexandre.

ALEXANDRE
Há alguns anos, o Papa veio ao nosso país, fazendo uma visita religiosa. Eu comprei uma arma para matá-lo. Mas, na véspera da visita, tive enfim uma noite de amor com a mulher dos meus sonhos. No dia seguinte, fiquei em casa lendo um livro, e o Papa sobreviveu. O que significa essa história?

A direção de Eric Lenate demonstra, mais uma vez, maturidade e uma estética própria admirável. Com o espetáculo O Teste de Turing, o diretor comprova que ficção científica é um gênero particular para o teatro e que pode nos fornecer muitos insights.

O suporte do vídeo ao vivo é utilizado com originalidade e bem executado, sendo uma ideia proposta por Lenate e que se encaixou muito bem no contexto da dramaturgia. Com esse recurso o público se encontra numa posição privilegiada e se sente, se não no comando do teste, pelo menos, membro da diretoria que está assistindo ao mesmo.

Um dos questionamentos proporcionados pelo espetáculo é o fato de que mesmo os seres humanos tendo um oceano de possibilidades a sua frente, em sua grande maioria, preferem viver como máquinas, com atitudes mecanicistas no cotidiano. É o que percebemos vivendo dia após dia numa sociedade completamente viciada na ilusão que as redes sociais e aplicativos de mensagens proporcionam para nós.

A partir dessa reflexão, entendemos que os programadores que criam uma máquina para ter sucesso no teste utilizam a lógica dedutiva para inserir todo o “conhecimento” que o programa precisará ter, indicando as perguntas que podem surgir dos participantes e, portanto, evidenciando uma terrível tendência: nós, seres humanos, podemos ser previsíveis como máquinas.

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Ficha Técnica

Texto: Paulo Santoro | Direção: Eric Lenate | Elenco: Maria Manoella, Rodrigo Fregnan, Jorge Emil e Felipe Ramos | Participação especial: Fernando Gimenes, Martina Gallarza, Eric Lenate e Calu Baroncelli | Iluminação: Aline Santini | Figurinos: Rosangela Ribeiro | Ambientação cenográfica: Eric Lenate | Trilha sonora, sonoplastia e engenharia de som: L. P. Daniel | Videografia: Laerte Késsimos e Eric Lenate | Fotos e registro documentário: Leekyung Kim | Produção: Gelatina Cultural | Direção de produção: Ricardo Grasson | Assessoria de imprensa: Nossa Senhora da Pauta | Idealização: Sociedade Líquida.

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