Jornalismo Cultural no Brasil

No Brasil, o jornalismo cultural ganhou força no final do século XIX e foi muito bem representado por grandes ícones da literatura como Machado de Assis, que começou a carreira como crítico de teatro, resenhista e ensaísta. José Veríssimo foi outro grande crítico, ensaísta e historiador da literatura, assim como Oswald e Mário de Andrade que também merecem o devido destaque.

Em 1922, foi lançada a primeira revista modernista do país, a Klaxon (nome da buzina dos carros da época), que teve somente nove números publicados por falta de patrocínio. Essa foi a primeira ação após a Semana de Arte Moderna de 1922. O corpo de colaboradores era formado por Mário e Oswald de Andrade, Menotti del Picchia, Graça Aranha, Guilherme de Almeida, Sérgio Buarque de Holanda, Sérgio Milliet, Manuel Bandeira, Tarsila do Amaral, Di Cavalcanti, entre outros artistas visuais.

Klaxon
Os nove números publicados da revista Klaxon

Abrindo espaço para uma nova revista vanguardista, nasceu, em 1928, a Revista de Antropofagia, criada por Oswald de Andrade. No mesmo ano também surgiu a icônica revista O Cruzeiro, que deu outra dimensão e complexidade para o jornalismo cultural, lançando o conceito de reportagem investigativa.

O Cruzeiro surgiu no Rio de Janeiro, apresentando um Brasil moderno, após a Primeira Guerra Mundial, com capacidade de atingir todos os tipos de público. Privilegiando a figura do repórter e do fotógrafo, a revista semanal era editada pelos Diários Associados, de Assis Chateaubriand. Uma das iniciativas da revista para descobrir novos talentos da literatura nacional, era um prêmio em dinheiro e com publicação na edição, ganhando ilustração de famosos artistas como Anita Malfatti, Di Cavalcanti, Ismael Nery, entre outros. A publicação de contos e novelas também foi outra proposta impactante no início das publicações e tinha colaboradores consagrados, como Manuel Bandeira, Humberto de Campos, Mário de Andrade, José Lins do Rego, Vinicius de Moraes e Érico Veríssimo.

Em 1938, foi lançada a Revista Diretrizes, dirigida por Samuel Wainer que tinha pretensão de atingir um público intelectualmente preparado e abordar temáticas de cultura, economia e política. Outra revista vanguardista que também merece destaque é a Senhor, que teve sua primeira edição em 1959 e tinha publicação atemporal, com foco em literatura.

As crônicas sempre tiveram espaço fixo nas seções culturais e o precursor do moderno jornalismo cultural brasileiro foi o Caderno B, do Jornal do Brasil, inaugurado em 1956. Esse caderno proporcionou a criação de novas experiências como do Suplemento Literário d’O Estado de São Paulo, que até hoje é referência para a prática do bom jornalismo cultural.

Caderno B Drummond
CIAO, última crônica de Drummond publicada no Caderno B do Jornal do Brasil, em 1984.

Para modernizar a linguagem do jornalismo brasileiro, surge O Pasquim, em 1969. Esse era um jornal semanal que estava na linha de frente da luta contra a ditadura e tinha o cartunista Jaguar como criador, junto dos jornalistas Tarso de Castro e Sérgio Cabral. Os principais colaboradores foram Ziraldo, Millôr Fernandes, Henfil e Paulo Francis.

Em 1980, a Folha de S.Paulo criou a Ilustrada e O Estado de S.Paulo lançou o Caderno 2. Porém, a partir dos anos 90, os dois jornais começaram a dar ênfase na agenda passiva de eventos, o que tomou conta da pauta e tirou muito do legado de opinião de críticos e intelectuais que colaboravam e tinham espaço anteriormente.

Atualmente, nas narrativas de jornais e revistas culturais brasileiras, quase sempre, prevalece a visão do consumo. Isso ocorre nos veículos hegemônicos e que parecem não conseguir criar uma narrativa criativa e inovadora além de indicar peças, exposições, shows e outros eventos da programação local.

Cabe ao jornalismo cultural escapar à limitação temática de lançamentos de CDs, livros e exposições de artistas consagrados para podermos, enfim, compreendermos o sentido forte da cultura, explorando mais as implicações das obras na sociedade do que, propriamente, reduzir o jornalismo cultural a uma agenda de eventos. Falta mais análise e mais interpretação (no sentido de estabelecer relações múltiplas e complexas). O que exige uma perspectiva aberta para as obras humanas sem classificá-las em paradigmas redutores. (MELO, s/d: 4)

A relação comercial entre arte e cultura está sempre presente nas narrativas jornalísticas e isso se deve pelas relações superficiais entre as assessorias de imprensa dos eventos e as redações, que se submetem a divulgar certos eventos em detrimento de realizar uma crítica ou resenha mais aprofundada sobre a dinâmica cultural da sociedade. A grande imprensa apenas reporta, divulga e analisa superficialmente os produtos culturais.

A principal questão é sobre quem analisa essas transformações constantes nas culturas, pois “o jornalista cultural precisa buscar refletir a realidade vivenciada pela sociedade captando ângulos do seu cotidiano e, fundamentalmente, sabendo diferenciar cultura, arte e consumo” (ROSA, 2013: 70).

Os chamados “especialistas” afastam o público da produção e do reconhecimento do que é produzido culturalmente. Apenas quando o jornalista se apropria do assunto e dá voz a outras linguagens artísticas ele consegue interferir na dinâmica das pessoas e influenciar positivamente os leitores.

Espera-se dos “especialistas” culturais, que assuntos complexos sejam simplificados para melhor compreensão do público. Porém, essa simplificação, pode acabar alienando os leitores e não criando curiosidade e provocação na leitura dos textos. É preciso ter cuidado e respeito na hora de escrever um texto sobre uma obra artística e dar o devido contexto de criação.

O jornalismo cultural nasce com a função de mediar o conhecimento e aproximá-lo do maior número de pessoas. A intenção era a de não restringir a uma elite a esfera das artes, da filosofia e da literatura. Havia nisso um entendimento da função social do jornalismo cultural como lócus adequado para dar acesso irrestrito a todo saber, fato esse que se torna uma regularidade no jornalismo cultural. (MELO, s/d: 5)

No capitalismo, somente o que é “vendável” é reconhecido como produto cultural digno de ter espaço nas seções de jornais e revistas. Isso gera um comportamento social que passa a acontecer segundo a lógica de mercado e da indústria cultural. A condição de contemplação do indivíduo, dentro do processo econômico dos produtos culturais, causa uma alienação que coloca em risco a liberdade das pessoas dentro da própria sociedade.

O jornalista cultural precisa produzir narrativas sem estar dentro das regras de mercado. Esse paradigma precisa ser quebrado, caso contrário a cultura continuará “coisificada” e os indivíduos não serão provocados para entenderem que estão imersos num processo de alienação.

A função social de reflexão sobre as obras culturais é um papel importante do jornalista que escreve sobre cultura, com intuito de democratização do conhecimento. Essa perda da reflexão nos textos pode acabar com o princípio primordial desse profissional que deveria levar ao público questionamentos e provocações.

É preciso problematizar o papel do jornalista e entender a importância de uma boa formação na área. Os conceitos e todas as linhas teóricas que discutem cultura precisam ser bem estudadas, pois as realidades locais e globais devem ser compreendidas. O jornalista deve entender, respeitar e saber comunicar a respeito de produtos culturais ampliando possíveis discussões sobre os temas.

A arte de tecer o presenteCremilda Medina, jornalista, pesquisadora e professora de comunicação social da USP, em seu livro A arte de tecer o presente: narrativa e cotidiano, nos apresenta uma nova forma de compreender a função do repórter como mediador social dos discursos da atualidade. Propondo o conceito do diálogo possível, Medina constata que histórias de personagens da cidade – que jamais chegariam à consagração nos meios de comunicação – precisam de espaço na mídia e de jornalistas que queiram contar suas histórias que ficam à deriva perante os eventos da indústria cultural. Essas narrativas dão sentido aos contextos sociais e são fundamentais para uma melhor compreensão da contemporaneidade.

O diálogo possível aposta na busca dos valores humanos, deixando a teorização da entrevista jornalística com técnicas e padrões de lado e enfatizando a arte do diálogo. Ao narrar uma história o escritor mobiliza múltiplos receptores da mensagem. Trata-se de humanizar as técnicas, pois a intertextualidade existe antes, durante e depois da escrita e o presente se tece na ação coletiva.

Enunciar um texto que espelhe o dramático presente da história é, a princípio, um exercício doloroso de inserção no tempo da cidadania e da construção de oportunidades democráticas. Ao se dizer, o autor se assina como humano com personalidade; ao desejar contar a história social da atualidade, o jornalista cria uma marca mediadora que articula as histórias fragmentadas; ao traçar a poética intimista, que aflora do seu e do inconsciente dos contemporâneos, o artista conta a história dos desejos. (MEDINA, 2003: 48)

Um dos projetos criados por Medina para colocar em prática o conceito de diálogo possível foi a série de livros São Paulo de Perfil, com veiculação de reportagens de fôlego que narram histórias de personagens anônimos e comuns do cotidiano paulistano. Quem escreve as reportagens são alunos do curso de graduação em Jornalismo e participantes do projeto Universidade Aberta à Terceira Idade.

Narrar é uma necessidade vital, mas a tendência dos grandes veículos de comunicação é deixar os leitores frustrados com as narrativas que são criadas a partir de um universo simbólico próprio dos especialistas. Ao dar voz às pessoas do cotidiano, o jornalismo se aproxima da comunicação humana e estabelece contato como ponte e não com paredes para os leitores.

Os afetos tecem redes de sobrevivência criando alternativas que provam que os modelos atuais não dão conta de cumprir o papel do jornalismo, pois não possibilitam proporcionar novos olhares a partir de outras narrativas e não desafiam ao investir nas pequenas histórias de vida.

Infelizmente, não temos muitas oportunidades para ler narrativas envolventes e aprofundadas. Em nosso país, a dinâmica do capital prevalece nas redações, empobrecendo a escrita e agindo no automatismo perante às possibilidades que proporcionam aos leitores.

Como criar uma narrativa ao mesmo tempo sedutora e inusitada, se a forma está aprisionada a regras de uma razão instrumental que, por sua vez, não legitima a emoção como força motriz do ser humano? Assim, desumanizada, preconceituosa e estática a narrativa predominante exibe, de forma sintomática, as crises da cultura e da escolaridade nos marcos da modernidade. (MEDINA, 2003: 50-51)

O jornalista cultural precisa ir além de informar sobre uma obra de arte e sua história, ele precisa utilizar sua análise aprofundando aspectos da realidade, da vida cotidiana e provocando novas perspectivas para o leitor. É necessário proporcionar um contexto social a partir da arte observada.

Se analisarmos nosso panorama histórico é fácil notar que tivemos jornalistas culturais consagrados no passado e que, hoje em dia, temos pouquíssimos jornalistas que se equiparam a eles. O reflexo acaba sendo a perda de consistência e ousadia na escrita. Na internet, existe um espaço mais democrático para o jornalismo cultural acontecer. Muitos sites e blogs se dedicam a resenhar livros e fazer críticas sobre obras artísticas.

A imprensa cultural tem o dever do senso crítico, da avaliação de cada obra cultural e das tendências que o mercado valoriza por seus interesses, e o dever de olhar para as induções simbólicas e morais que o cidadão recebe. No momento atual, o jornalismo cultural não tem conseguido realizar essa função com clareza e eficácia. (PIZA, 2003: 45)

Um dos problemas corriqueiros na imprensa é ter se entregado ao cronograma de eventos que são enviados pelas assessorias. Além da credibilidade crítica ficar a desejar, são publicadas matérias e não análises sobre o impacto das obras na sociedade. O costume dos jornalistas viciados é sempre escrever sobre o que será lançado ou sobre algum produto que está fazendo sucesso. Raramente lemos sobre esses mesmos produtos depois que eles ficaram um tempo “em cartaz”. Portanto, deixamos de refletir sobre o que significam tais obras e como elas afetam o público de maneira geral, ao longo do tempo.

Reportar é saber, portanto outras possibilidades para os jornalistas, além de cobrir a agenda de eventos é analisar o cenário político da cultura, como os recursos públicos estão sendo gastos na área, como está o tratamento do setor cultural e dos artistas, mapear os problemas, dificuldades técnicas e financeiras dos equipamentos culturais da cidade, entre tantas outras pautas fundamentais para um bom jornalismo cultural.

No entanto, para chegar nesses objetivos é necessário dispender tempo para investigar o que está acontecendo e propor uma narrativa que contemple outras abordagens. O jornalismo cultural só tem a ganhar com essa persistência e apuração no relato. Equiparar a seção de cultura com as demais seções de jornais e revistas é fundamental para, finalmente, termos uma boa cobertura de assuntos culturais que são fundamentais para construção e entendimento de nossa identidade e história coletiva.

Bibliografia

BIBLIOTECA NACIONAL DIGITAL. Diretrizes. Disponível em: < https://bndigital.bn.br/artigos/diretrizes/ >. Acesso em: 30 jul. 2016.

JORNAL GGN. A trajetória da revista Senhor. Disponível em: < http://jornalggn.com.br/blog/luisnassif/a-trajetoria-da-revista-senhor >. Acesso em: 30 jul. 2016.

JORNAL O ESTADO DE S. PAULO. Primeira revista da turma vanguardista, a “Klaxton” é reeditada. Disponível em: < http://cultura.estadao.com.br/noticias/literatura,primeira-revista-da-turma-vanguardista-a-klaxon-e-reeditada-imp-,1101173 >. Acesso em: 30 jul. 2016.

MEDINA, Cremilda de Araújo. A arte de tecer o presente: narrativa e cotidiano. São Paulo/SP, Summus Editorial, 2003.

MELO, Isabelle Anchieta de. Jornalismo Cultural: Pelo encontro da clareza do jornalismo com a densidade e complexidade da cultura. Disponível em: < http://www.bocc.ubi.pt/pag/melo-isabelle-jornalismo-cultural.pdf >. Acesso em: 20 jul. 2016.

PIZA, Daniel. Jornalismo Cultural. São Paulo/SP, Editoria Contexto, 2003.

ROSA, Márcia Eliane. Jornalismo cultural para além do espetáculo. Disponível em: < http://casperlibero.edu.br/wp-content/uploads/2014/05/07-Marcia-Eliane.pdf >. Acesso em: 20 jul. 2016.

SECRETARIA ESPECIAL DE COMUNICAÇÃO SOCIAL. O Cruzeiro – A Maior e Melhor Revista da América Latina. Disponível em: < http://www.rio.rj.gov.br/dlstatic/10112/4204434/4101414/memoria3.pdf >. Acesso em: 26 jul. 2016.

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